sábado, 16 de fevereiro de 2008

Os militares e o segundo governo Vargas (CPDOC)





O ministro da Aeronáutica Nero Moura (discursando) durante o almoço oferecido pelos militares ao presidente Getúlio Vargas (sentado de óculos escuros) no Clube da Aeronáutica. Rio de Janeiro, 2 de janeiro de 1954. Entre 31 de janeiro de 1951, quando Getúlio Vargas assumiu o governo, e 24 de agosto de 1954, quando se suicidou, a área militar foi marcada por disputas políticas e divergências ideológicas entre duas principais tendências: uma autodenominada "nacionalista" (e acusada de ser esquerdista pelos adversários) e outra "democrática" (acusada de ser "entreguista" pelo lado contrário). Vargas alternou o apoio a uma e outra tendência, num jogo arriscado que levou à perda de apoio do governo na área militar.

O clima de dissensão esteve presente já na indicação do general Estillac Leal, um expoente da ala "nacionalista", para ministro da Guerra, que foi mal recebida por círculos militares mais conservadores. A ala "nacionalista" defendeu a neutralidade brasileira na Guerra da Coréia (1950-1953), a campanha pela criação da Petrobras e o monopólio estatal do petróleo. Por seu lado, a tendência autodenominada "democrática" defendia o alinhamento com os Estados Unidos na Guerra da Coréia e a participação de grupos privados na exploração do petróleo, e criticava duramente a "infiltração comunista" nas Forças Armadas. Alguns generais dessa tendência fizeram críticas públicas ao governo, como os generais Euclides Zenóbio da Costa, veterano da FEB e comandante da Zona Militar Leste e da 1ª Região Militar, e Canrobert Pereira da Costa.

Eleições para o Clube Militar. Rio de Janeiro (DF), 1954. Um golpe na ala nacionalista foi dado quando o general Góis Monteiro, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, conseguiu articular, juntamente como o ministro do Exterior, João Neves da Fontoura, o Acordo Militar Brasil-Estados Unidos, assinado em março de 1952. Nesse mesmo mês, os generais Zenóbio e Estillac foram exonerados de suas funções, e o general Ciro do Espírito Santo Cardoso Eleições para o Clube Militar. Rio de Janeiro (DF), 1954. assumiu o Ministério da Guerra. Um enfrentamento direto entre as duas tendências ocorreu logo em seguida com as eleições para o Clube Militar. Estillac Leal lançou-se candidato à presidência do clube, numa chapa que se chamou de "nacionalista", por oposição aos militares de orientação "entreguista". Concorrendo com ela estava a chapa da "Cruzada Democrática", organizada pelo general Cordeiro de Farias e encabeçada pelos generais Alcides Etchegoyen e Nélson de Melo, defendendo a bandeira do "nacionalismo sadio". A Cruzada Democrática foi eleita com 65% dos votos.

Em fevereiro de 1954 foi tornado público um documento que ficou conhecido como Manifesto dos Coronéis, assinado por 81 oficiais superiores do Exército, muitos deles ligados à Cruzada Democrática. O documento, que foi enviado ao ministro da Guerra, protestava contra a falta de recursos para o Exército e contra a proposta do governo de dobrar o valor do salário mínimo, apresentada pelo ministro do Trabalho, João Goulart. O episódio levou à substituição do ministro do Exército pelo general Zenóbio. Em maio seguinte, a Cruzada Democrática venceu novamente as eleições do Clube Militar, agora com uma chapa encabeçada pelos generais Canrobert e Juarez Távora.

A perda de apoio militar do governo precipitou-se quando, na madrugada de 5 de agosto de 1954, o jornalista e candidato a deputado federal pela UDN Carlos Lacerda sofreu um atentado, no qual morreu o major-aviador Rubens Vaz, integrante de um grupo de oficiais da Aeronáutica que lhe dava proteção durante a campanha eleitoral. Sem confiar na ação da polícia, a Aeronáutica instaurou um IPM na Base Aérea do Galeão para investigar o episódio. Pelo poder de que desfrutou, esse IMP ficou conhecido como "República do Galeão".

Diante dos indícios de envolvimento da guarda pessoal de Getúlio no atentado, oficiais da Aeronáutica passaram a exigir a deposição do presidente, numa pressão crescente. No dia 23, o almirantado aderiu à causa da Aeronáutica, e 37 dos 80 generais do Exército que exerciam funções de comando no Rio de Janeiro assinaram um memorial a favor da renúncia de Vargas. Sem apoio efetivo na área militar, Vargas suicidou-se na madrugada de 24.


Celso Castro



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31 de Março de 1964: Contribuição ao Painel do Clube Militar

*Aimar Baptista da Silva

Sobre verdades e mentiras, patriotismo e traição, passado e futuro
I - Justificativa e explicação :
" Eu não fui para a Escola Militar por desejo de ser militar, mas por necessidade. Meu pai era militar e o Colégio Militar dava facilidades para os órfãos de militares, inclusive fardamento e livros. Mas a verdade é que eu fui educado na crítica aos militares." (Luiz Carlos Prestes, considerado o mais "poderoso chefão bolcheniquim", em entrevista a Dênis de Moraes e Francisco Viana, que a publicaram em seu livro "Prestes: lutas e autocríticas").
" A Virgílio de Melo Franco e a Pedro Ernesto, quando ia adiantada a conspiração, Artur Bernardes chamaria a atenção para os boatos sobre as tendências comunistas de Prestes e seus companheiros. Essas dúvidas se dissipariam, mais tarde, com a definição marxista de Prestes, que perderia por isso mesmo o comando militar dos movimentos revolucionários, dele se afastando os antigos companheiros da Coluna, Miguel Costa, Juarez Távora, Cordeiro de Farias, Filinto Muller, Djalma Dutra, João Alberto, Siqueira Campos e tantos outros." (Francisco de Assis Barbosa, apud Nelson Werneck Sodré em "História Militar do Brasil").
"Eu sou uma figura de prestígio nacional e internacional e todos sabem que nunca traí nem trairia a causa comunista." (L C Prestes, apud D. de Morais e F. Viana, op. cit.).
II - A ideologia :
" O Diário Oficial de 7 de abril de 1922 publicou o registro e os estatutos de uma sociedade civil que se denominava Partido Comunista do Brasil, seção brasileira da Internacional Comunista, com sede na praça da República, 40, Rio de Janeiro. Que tinha por fim : promover o entendimento, a ação internacional e a organização política dos trabalhadores em partido de classe, para a conquista do poder e conseqüente transformação política e econômica do capitalismo em sociedade comunista." (Luis Mir, em " A Revolução Impossível").
" ... nós, comunistas, lutamos por um objetivo estratégico mais distante: a democracia socialista. ... o comunista terá sempre esse objetivo: o socialismo, a revolução, a democracia socialista." (L. C. Prestes, apud D. de Moraes e F. Viana, op. cit.).
"O reformismo, que combato, quer chegar até o socialismo através de reformas pacíficas. É a democracia burguesa levada até o socialismo. Nós temos de conquistar uma democracia nova. A democracia socialista é completamente diferente da democracia burguesa. É preciso uma descontinuidade, é preciso um salto, de qualidade." ("L. C. Prestes, apud D. de Moraes e F. Viana, op. cit.).
" É como eu estava dizendo. Hoje a gente faz greve e apanha os atrasados e algum aumento. Um dia a gente faz a revolução e toma logo tudo. ... É para resolver essa questão que o comunismo virá. Ele não demora. O comunismo é invencível. O comunismo é como o vento. Quem segura o vento quando ele começa a soprar ? (Alina Paim, em " A Hora Próxima", apud H. Linhares, "Contribuição à história das lutas operárias no Brasil").
" O sangue é o rio que move a roda da história." (H Linhares, op. cit.).
"A violência é a parteira da História." (Karl Marx).
"A democracia não é mais do que uma tática, descartável como todas as outras." (Vladimir Illitch Ulianov, mais conhecido como Lênin).
III - O engodo :
" Tendo como objetivo programático final o estabelecimento do socialismo, os comunistas brasileiros lutam por um governo que assegure a plena emancipação econômica do país, a eliminação da estrutura agrária atrasada, a ampliação das liberdades democráticas e a melhoria das condições de vida das massas populares, bem como uma política externa independente. Estão certos de que essas transformações constituem uma etapa prévia e necessária no caminho para o socialismo." (Luiz Carlos Prestes, manifesto publicado em agosto de 1961, em suplemento do jornal comunista "Novos Rumos).
"Os homens livres e amantes da paz não mais querem os regimes de censura da imprensa, delação, espionagem, terrorismo e tirania. A guerra não é mais uma necessidade histórica ; é necessário o advento da paz, destruindo com suas luzes as sombras do mal. ... Não haverá forças, distorsões (sic), empecilhos que impeçam esta marcha serena para a frente : o mundo marcha para o socialismo." (H Linhares, op. cit.).
IV - O Inimigo :
" A divisão do mundo em nações deu aos militares a consciência e formou o estado espiritual para defender aquilo que eles chamam de pátria, que na realidade é a criação de um sentimento conservador limitado a uma região. ... a pátria é também um sistema de proteção criado pela divisão da sociedade em classes. O militar é um produto disto." (Homero Casalis, codinome J. Posadas, argentino, musa inspiradora dos trotskistas nativos, em "Brasil : do golpe de 1964 à formação do PT - seleção de textos sobre nacionalismo, populismo e a construção do socialismo").
" A história dos comunistas no Brasil correu sempre paralela à do Exército brasileiro neste século. ... As duas maiores barreiras que enfrentaram : internamente, um anticomunismo profissional e permanente dos militares e da elite brasileira ; externamente, o estigma da credibilidade. ... Avaliaram equivocadamente o seu inimigo principal, o Exército brasileiro ..." (L. Mir, op. cit.).
"Mas o pavor genérico e histérico da ‘bolchevização’ do país trazia em seu bojo um temor específico das Forças Armadas. Era o da repetição aqui da experiência pós-revolucionária cubana de desintegração do Exército regular, com sua substituição por milícias populares. ... É claro (e natural) que mesmo a simples hipótese de perderem seus empregos fez certos homens se arrepiarem por trás de suas fardas e medalhas." (Amir Labaki, em "1961 - A crise da renúncia e a solução parlamentarista").
"Havia também a ameaça à segurança institucional do Exército. A criação de milícias urbanas (Grupos dos Onze) e de milícias rurais (Liga de Camponeses), no contexto histórico brasileiro, apresentavam sérias ameaças ao Exército. De fato, o exemplo de Cuba, de Fidel Castro, onde o exército de forças regulares fora substituído por forças de milícia estava presente no espírito de todos os chefes militares." (Coronel Ferdinando de Carvalho em "A Guerra Revolucionária Comunista no Brasil").
" Em 54, o PCB realiza clandestinamente o IV Congresso de sua história clandestina em São Paulo. É decidida a criação do Exército de Libertação Nacional para o assalto violento ao poder. São selecionados alguns militantes para serem enviados à União Soviética onde fariam o curso de oficial do Exército Vermelho." (L. Mir, op. cit.).
" No momento da renúncia de Jânio, Goulart estava em viagem com o objetivo de incrementar o intercâmbio com os países do bloco socialista. Na China ele fizera um pronunciamento particularmente radical, quando revelara sua intenção de estabelecer uma república popular no Brasil, mas acrescentara que para fazer isso seria necessário utilizar as praças para esmagar o quadro de oficiais que ele considerava de reacionários." (Robert A Hayes em "Nação Armada, a mística militar brasileira").
" No dia seguinte ao motim (rebelião dos sargentos em Brasília), o general Humberto de Alencar Castelo Branco empossou-se na Chefia do Estado-Maior do Exército, condenando os oportunistas reformistas que pretendiam substituir as Forças Armadas por milícias populares ( GUPOS DOS ONZE, de Leonel Brizola) de ideologia ambígua." ( "O Estado de São Paulo", 14 Set 1963, não textual).
"O exército, que é o aparato essencial da repressão, está em decomposição. A rebelião dos sargentos e cabos é só um aspecto da decomposição do exército - o mais importante, mas não o único. Há também uma luta entre chefes e oficiais, uma luta de militares chefes do exército que apóiam abertamente a revolução cubana, e isto não é novo." (Homero Casalis, codinome J. Posadas, artigo "O nacionalismo e a revolução socialista no Brasil", Op cit, 30 de dezembro de 1963).
" Na propaganda oficial, já havia dois tipos de oficial : os ‘generais do povo’(Crisanto de Miranda Figueiredo, Osvino Alves, Euriale de Jesus Zerbini, Oromar Osório, Assis Brasil e muitos outros) ; havia também ‘almirantes do povo’ como Cândido de Aragão e Araujo Suzano, e os ‘brigadeiros do povo’, como Francisco Teixeira. .................. E os ‘gorilas’ (Mourão Filho, Castelo Branco, Ernesto Geisel, Carlos Guedes, Costa e Silva, e outros. (Luis Mir, op. cit., não textual). "Os generais Jurandir de Bizarria Mamede, Humberto de Alencar Castelo Branco e Carlos de Meira Mattos eram patriotas. Disse isso a Prestes depois do golpe." (Salomão Malina, ex-secretário-geral do PCB, apud Luis Mir, op. cit.).
"Será necessário reestruturar o Exército afastando dele todos os elementos pró-imperialismo e reacionários, a quem se deve desarmar. Os Exércitos das classes dominantes terão que ser substituídos. Mas a forma em que isso será feito não será uniforme em todas as partes." (L. C. Prestes, numa das cadernetas apreendidas em 9 de abril de 1964).
" Eu ia fazer uma limpeza. Ia expurgar praticamente todo o Almirantado e grande parte da oficialidade. Eles eram os responsáveis pela indisciplina dos praças porque vinham freqüentemente quebrando a hierarquia, perdendo força moral para impor disciplina aos subalternos. Eu ofereci uma saída honrosa, através de um documento em que todos repudiariam os atos de indisciplina. Nem o Almirantado, nem a oficialidade aceitaram. Assim, não restou outra alternativa senão afastá-los. Infelizmente, o governo não quis resistir ao golpe de 64 e caiu." (Almirante Paulo Mário da Cunha Rodrigues, nomeado ministro da Marinha após a revolta dos marinheiros, substituindo o almirante Sílvio Mota, demissionário).
" O diagnóstico do PCB sobre a derrota em 64 apontava finalmente que o inimigo principal era o Exército brasileiro." (Luis Mir, op. cit.)
V - A Revolução Socialista :
"Com a campanha pelo presidencialismo, começou a conspiração que culminaria em 31 de março de 1964. Dois anos antes, no Palácio do Planalto, Jango dissera a Adhemar ( - de Barros ) que a instauração de uma república sindicalista (nome brasileiro da República Justicialista argentina) era inevitável e que as adesões deveriam ser rápidas, pois o tempo era curto ; Adhemar discordou, e Jango aconselhou-o paternalmente a exilar-se ; a conversa correu as Forças Armadas." ("Correio Popular", Campinas/SP, edição de 31 de março de 1994).
"Aliás, uma das informações mais completas que recebi da intenção do Presidente João Goulart em dar um golpe de estado, com a instituição da República Sindical, foi dada por Adhemar de Barros. Um pouco antes de março de 1964, recebi em minha casa, na Tijuca, onde morava, a visita dele, que ao entrar foi logo me dizendo : ‘ Marechal, vim agora do Palácio, onde o Jango me convidou para o golpe que vai dar. O golpe é o seguinte : no dia 19 de abril, aniversário do Dr. Getúlio (Vargas) , vai haver um comício comemorativo da data em Belo Horizonte e nele vai haver barulho, para justificar a intervenção no Estado de Minas Gerais, e no dia 1o de maio, data do operariado, será outorgada a Constituição que implantará no Brasil o regime sindicalista.’ E disse mais: ‘Eu nada podia objetar, não tinha força para lutar e ele disse tudo como assunto já resolvido; espero que as Forças Armadas salvem este Brasil’." (Marechal Odylio Denys em "Ciclo Revolucionário Brasileiro").
" Nesse período extremamente turbulento, Jango apoiava-se na chamada FPN (Frente Parlamentar Nacionalista), que congregava o ‘grupo compacto’ do PTB, a ‘ala moça’ do PSD e até a chamada ‘bossa nova’ da UDN. Para executar as reformas de base, Goulart contava ainda com o apoio da FMP (Frente de Mobilização Popular), liderada por Brizola, congregando a ala esquerda do PTB, a UNE, as Ligas Camponesas e o P C do B. Vale destacar ainda a Ação Popular (Movimento de Católicos Progressistas), a CGT e a PUA (Pacto de Unidade e Ação), organismo intersindical." (Renato Mocelin em " A História Crítica da Nação Brasileira").
" Em 64, o Exército tinha cerca de 10 mil oficiais. Desses, mil militares de esquerda, reformistas, dos quais não mais que 150 eram comunistas, contando-se oficiais, suboficiais, cabos e soldados. A direita militar sempre foi majoritária, com 90 por cento do corpo de oficiais do Exército. Nunca houve, nem em sonho, a ameaça militar vermelha. Para se criar um exército revolucionário capaz de fazer frente ao Exército brasileiro na época seriam necessários forças e recursos que exigiriam anos de acumulação e preparação." (Luis Mir, op. cit.).
VI - A Contra-Revolução :
"Assim, pelo seu caráter contra-revolucionário, o golpe de Estado antinacional e antipopular que derrubou Goulart não se conteria nos limites formais de uma legalidade já estuprada. ... E Castelo Branco, o amigo de Walters (general norte-americano Vernon Walters, que participou da II Guerra Mundial junto com Castelo Branco) emergiu da sombra como o candidato do governo invisível à Presidência da República, levando ao Poder a UDN e os oficiais da Cruzada Democrática, cujos desígnios ditatoriais o suicídio de Vargas, ao acender a fúria popular, retardou por dez anos." (Moniz Bandeira, em "O Governo João Goulart - As lutas sociais no Brasil").
"Os oficiais da Cruzada Democrática, antigetulistas na sua maioria, e considerados conservadores pela ênfase anticomunista, eram liderados por oficiais tais como o General Cordeiro de Farias, General Juarez Távora e o Brigadeiro Eduardo Gomes." (Thomas Skidmore em "Brasil : de Getúlio a Castelo", não textuais).
" Nos primeiros meses de 1964, esboçou-se uma situação pré-revolucionária e o golpe direitista se definiu, por isso mesmo, pelo caráter contra-revolucionário preventivo. A classe dominante e o imperialismo tinham sobradas razões para agir antes que o caldo entornasse.
A hegemonia da liderança nacionalista burguesa, a falta de unidade entre as várias correntes, a competição entre chefias personalistas, as insuficiências organizativas, os erros desastrosos acumulados, as ilusões reboquistas e as incontinências retóricas - tudo isto em conjunto explica o fracasso da esquerda. Houve a possibilidade de vencer, mas foi perdida.
Mais grave é que foi perdida de forma desmoralizante. " (Jacob Gorender, dirigente comunista em " Combate nas Trevas - A esquerda brasileira : das ilusões perdidas à luta armada").
" Na noite de 31 de março, eu percebi que a classe operária estava isolada. E ia ser derrotada da forma mais desmoralizante possível: sem luta. E percebi que quem assumisse a responsabilidade de levar a classe operária à luta cometeria um crime. Os generais queriam fazer no Brasil o mesmo que foi feito na Indonésia no ano seguinte : um banho de sangue." (L. C. Prestes, apud D. de Moraes e F. Viana, op. cit.).
" A verdade sobre 64, enfim, não é outra : não nos preparamos como seria necessário. Acreditamos no Jango, no Assis Brasil e em seu esquema militar, no almirante Aragão, comandante dos Fuzileiros Navais, que garantia cortar a cabeça dos golpistas que se levantassem contra o governo. Ele também não resistiu e nós ficamos numa situação muito difícil. Na noite de 31 de março, muitos companheiros não tiveram para onde ir." (L. C. Prestes, apud D. de Morais e F. Viana, op. cit.).
"Os golpistas conseguiram reverter dentro dos quartéis o trabalho dos nacionalistas. Venceram. Estávamos politicamente derrotados e uma tentativa de resistência seria um banho de sangue. Quem poderia legalmente ordenar um contragolpe e tinha autoridade para fazê-lo era Goulart. Não seria Prestes quem daria a ordem a meia dúzia de oficiais comunistas. Justificaria uma repressão em massa. Não resistir foi correto."(Salomão Malina, ex-secretário-geral do PCB, apud Luis Mir, op. cit.).
"Indiscutivelmente, o grande erro das forças progressistas foi o radicalismo de alguns, a incapacidade política de muitos e a crença errônea de que a luta antiimperialista interessava à burguesia brasileira." (Renato Mocelin, op. cit.)
VII - A Revolução Socialista (continuação) :
"O centro decisório do golpe militar de 64 estava nos Estados Unidos. Desde a década de 50 que o Exército brasileiro era considerado inepto politicamente e pouco confiável pelo governo norte-americano " (Luis Mir, op. cit.).
"O Comitê Central do PCB se volta, em novembro de 66, para a construção de uma frente política, da direita à esquerda, para a derrubada pacífica da ditadura militar. O enfrentamento pacífico com a ditadura se baseava na derrota de 64 : fomos derrotados politicamente, portanto, podemos derrotá-los politicamente." (Luis Mir, op. cit.).
"A atuação cubana em relação ao Brasil em termos militares - treinamento de brasileiros e concepção de luta guerrilheira - tiveram dois momentos distintos : na primeira fase, a coordenação de Fidel e Che na ajuda e treinamento dos militantes das Ligas Camponesas com o apoio direto e discreto da China. A partir do golpe militar e com a destruição dos planos de Julião e Brizola, Fidel tomaria as rédeas desse processo e se tornaria, especialmente em relação ao Brasil, seu principal formulador." (Luis Mir, op. cit.).
"A ALN era apenas um foco e o braço da Revolução Cubana no Brasil e como organização nasceu em Cuba." (Agonalto Pacheco, apud Luis Mir, op. cit.).
"O Exército Brasileiro terá de ser derrotado e destruído por ser o poder armado da classe dominante." (Carlos Marighella, líder da ALN, em "A Crise Brasileira", 1966).
"Fidel e Brizola comungam suas vontades e cabeças novamente, uma união que fora interrompida pelo golpe militar. O primeiro enviado a Cuba para detalhar o que se pretendia foi Herbert José de Souza (Betinho), seguido de Neiva Moreira e do coronel Dagoberto Rodrigues, emissários que manteriam a comunicação permanente entre Havana e Montevidéu. ... As mensagens, em códigos de letras e números, seriam transportadas na minha gravata e a ordem de Brizola era taxativa - só poderiam ser entregues diretamente para Fidel Castro (declaração de um mensageiro preso durante a "missão")." (Luis Mir, op. cit.).
"Muito antes da Bolívia, onde acabaria morrendo em 8 de outubro de 67, Che Guevara desejava fincar no Brasil sua caravana revolucionária na América Latina e a partir daqui, irradiá-la." (Luis Mir, op. cit.)
"A guerrilha brasileira será deflagrada em condições de insatisfação política e social, a ditadura brasileira está acuada, manifestações estudantis e greves começam a encurralar os militares ; o marechal Costa e Silva está imobilizado pela disputa da sua sucessão entre os generais Albuquerque Lima, Costa Cavalcanti e Orlando Geisel; a luta cindiu o Exército brasileiro em grupos que transformaram os quartéis em arenas políticas ; ... ." (De uma análise cubana da situação política do Brasil, um pouco antes da edição do AI/5, apud Luis Mir, op. cit.)
"Agosto de 69, culminando os preparativos Marighella empolgava-se nas reuniões : A direita, a burguesia e os militares serão trucidados." (Luis Mir, op. cit.).
"A evidência dessa rearticulação chegou a ponto de o Presidente Geisel julgar de seu dever alertar a nação em célebre discurso de 1o de agosto de 1975, no qual denunciou a infiltração comunista nos mais diversos setores do País, inclusive nos dois partidos políticos então existentes." ("Meio século de epopéia anticomunista", Coleção "Tudo sobre a TFP").
"A complacência criminosa com a infiltração comunista e a propaganda esquerdista que se revitaliza, diariamente, na imprensa, nos setores estudantis e nos próprios órgãos governamentais, os quais acolhem, no momento, nos escalões de assessoramento e de direção, noventa e sete comunistas militantes, conforme comuniquei ao Serviço Nacional de Informações, marxistas que permanecem intocáveis, em suas atividades desagregadoras." (Nota à Imprensa do então Ministro do Exército, general Sylvio Frota, outubro de 1977, apud / Gen/ Hugo de Abreu, em "O Outro Lado do Poder").
VIII - O que os "bolcheniquins" pensavam uns dos outros :
("bolcheniquins" - bolchevistas tupiniquins.).
"No Comitê Central, predomina uma tendência oportunista da direita (marxista). Basta olhar seus quadros. São todos pequenos burgueses ; o que são o Hércules Correia e o
Luiz Tenório de Lima ? Eram operários com todas as tendências populista e pequeno-burguesa." (L. C. Prestes, apud D. de Moraes e F. Viana, op. cit.).
"Arruda (Diógenes -) era um burguês, um senhor feudal, do ponto de vista ideológico. Era um cacique. Sabia que num processo autocrítico perderia o cargo, Os intelectuais o detestavam." (L. C. Prestes, apud D. de Moraes e F. Viana, op. cit.).
"No dia 31 de março de 1964, Marighela queria organizar um ataque ao Quartel-General do Exército. Dizia que tinha o apoio de grupos armados, mas o partido vetou a ação. Ele era muito valente, mas não tinha treinamento militar, nem conhecia bem o marxismo. Escreveu um manual de guerrilha que é um amontoado de tolices, sem nenhuma significação." (L. C. Prestes, apud D. de Moraes e F. Viana, op. cit.).
"Quanto a Brizola, um ser híbrido, mescla de populismo com nacionalismo revolucionário, o cubano (Fidel Castro) com certeza usaria o bom senso de não alimentá-lo revolucionariamente, negando-lhe discurso e recursos." (Luis Mir, op. cit.).
"Não tem competência para derrubar um general (Castelo Branco). Se eu estivesse lá as coisas seriam diferentes." (Fidel Castro sobre Brizola, apud Luis Mir, op. cit.).
"Mas Agildo (Cap Agildo Barata) foi um pequeno burguês radical que nunca chegou a ser marxista. A cisão de 1957 o reconduziu ao estuário do nacionalismo. Sua verdadeira ideologia, mal encoberta pelo verniz comunista." ( J. Gorender, op. cit.).
"O que distingue o revolucionário comunista não é a ausência de intuição, mas a potencialização desta pela ciência social marxista. Prestes é uma negação na arte da política, tanto quanto foi incapaz de empreender sequer um estudo marxista sobre a sociedade brasileira." (J. Gorender, op. cit.).
"Prestes nunca foi marxista, pois nunca estudou a doutrina do proletariado. É um representante da burguesia democrática. Ele deixou cair nas mãos da polícia 1.500 documentos secretos em 36 ; facilitou o acesso aos arquivos do PCB pelo governo brasileiro em 47 ; e tinha esquecido na casa invadida após o golpe militar cadernetas particulares com o nome de centenas de companheiros." (Otávio Brandão, dirigente do PCB, impedido por Prestes de ocupar cargos de direção no partido ; apud Luis Mir, op. cit.).
" Não havia o que disputar, diz o arquiteto Farid Helou : Lamarca era um capitão e pronto. Para todas as organizações de esquerda armada, Marighella era uma estrela de primeira grandeza. Sua comparação com Lamarca? Entre uma estrela e um encarregado de trânsito da Vila Mariana. Teve, Lamarca, seu valor e seus momentos de ousadia e ações bonitas, mas não tinha o estofo e a grandeza política de Marighella." (apud Luis Mir, op. cit.).
IX - O dinheiro e as armas :
"A quantia exata do auxílio cubano para o projeto brizolista foi de 1,2 milhão de dólares, montante irrisório para as necessidades militares. Foram destinados 300 mil para a coluna operacional e militar, a cargo do coronel Dagoberto Rodrigues; 300 mil para Darcy Ribeiro montar um esquema político-diplomático e infra-estrutura política dentro e fora do Brasil; o restante, para compra de armas e fundos de provisão." (Luis Mir, op. cit.).
"Eu só soube da guerrilha do Caparaó pelos jornais. Não sabia também que os cubanos ofereceram dinheiro a Brizola. Só vim saber disso quando ele mesmo deu declarações à imprensa dizendo que recebera ajuda em dinheiro de Cuba." (L. C. Prestes, apud D. de Moraes e F. Viana, op. cit.).
"Em dezembro do mesmo ano (1967) a ALN começou os assaltos com finalidade de expropriação de fundos. ... Até julho de 1969, eram atacadas mais 31 agências bancárias e um carro pagador. .. O que se devia não só à ALN, mas também a outras organizações clandestinas." (Gorender, op. cit.).
"Seguiu-se quase que de imediato a mais importante ação da nova organização : a expropriação do cofre da residência de Ana Capriglione ... Retirado da mansão e levado para um aparelho, o pesado cofre revelou que a operação valera dois e meio milhões de dólares. Aparentemente, resultado fabuloso : a VAR-Palmares não mais precisaria arriscar-se em assaltos a bancos." (Gorender, op. cit.).
"O escasso proveito do assalto ao bar se compensou pelos trinta mil dólares e pelas jóias arrecadadas no apartamento do deputado federal Edgard Guimarães de Almeida, onde os membros do GTE entraram, a 19 de agosto de 1969, disfarçados de repórteres da revista Realidade." (Gorender, op. cit.).
"Após extenuante campanha militar, Lamarca encontrava sua organização sem dirigentes e sem aparelhos. Mais ainda : sem dólares. Porque Juarez tinha sido o intermediário da guarda de cerca de um milhão de dólares por um diplomata de país africano. As quedas de abril soltaram o delicadíssimo segredo e se criou um incidente com o Governo brasileiro, que obrigou o diplomata a sair do País. O estoque sobrante de dólares guardado na embaixada ficou indisponível para a VPR." (Gorender, op. cit.).
"Numa noite, por volta das vinte horas, Marighella apareceu no convento (Santo Alberto Magno, dos dominicanos, em São Paulo) com uma mala cheia de dinheiro de um assalto... ." (Luis Mir, op. cit.).
"O assalto ao trem-pagador Santos-Jundiaí, em 10 de agosto de 68, é a marca registrada do desvio da ALN de seu projeto original. ... Participaram da ação Marcos Antonio Braz de Carvalho, João Leonardo da Rocha, Virgílio Gomes da Silva, dentro do trem, e Carlos Marighella e Aloysio Nunes Ferreira Filho (antigo "pombo-correio" da ALN na França, hoje ministro do governo FHC) no transporte e guarda do dinheiro." (Luis Mir, op. cit.).
"Lobo (ex-sargento Pedro Lobo, da VPR) : Todo o dinheiro da VPR e as armas que possuíamos estavam na minha casa. Mais de 75 milhões de cruzeiros ; 400 quilos de dinamite da Pedreira Fortaleza de Cajamar ; o material desviado por Lamarca antes de sua saída (o certo seria ... deserção !) : 4 mil cápsulas de INA, 5 mil tiros de FAL ; alguns fuzis M-1 retirados do Parque da Aeronáutica por sargentos comunistas e fuzis M-2, trazidos por nós do exterior ; parte do armamento retirado da Casa Diana." (Luis Mir, op. cit.).
"No dia de sua saída (deserção) do quartel, acomodando as armas dentro de uma Kombi, um sargento lhe pergunta o que faria com aquele armamento, todo ele novo. O capitão Carlos Lamarca lhe responde : ‘Estou de saco cheio (sic) deste Exército. Vou montar o meu exército’. O capitão Carlos Lamarca deixa o quartel de Quitaúna com a Kombi carregada com 63 fuzis FAL, dois morteiros, e vai se encontrar com Samuel Iavelberg ... ." (Luis Mir, op. cit.).
"O Che, inicialmente, estava querendo vir para o Brasil. As armas viriam através das Guianas, desceriam pelo Tocantins, compradas de contrabandistas internacionais que operavam no mercado internacional. Era o projeto amazônico, considerado área ideal pela cobertura vegetal." (Luis Mir, op. cit.).
"A primeira remessa de armas de Cuba entrou pela Guiana Inglesa e chegou sem problemas até a fazenda preparada para recebê-las em Guarani, Goiás, em março de 1967. Fuzis e submetralhadoras de mão tchecas, num total de cinqüenta, com munição para um ano e seis meses. Em dia e meio foram enterradas a 5 quilômetros da casa principal. ... Estão lá até hoje." (Luis Mir, op. cit.).
"O CC (Comitê Central do P C do B) também calculava que o Exército atacaria com o grosso de tropas, mas que os soldados não teriam condições de lutar dentro da selva e assim, entre outras opções, foi montada, em fins de 1971, a estratégia principal : o Exército é que vai transportar nossas armas e munições para dentro da selva ; este é o principal papel da luta popular : tomar os trunfos do inimigo que é sempre bem armado. O CC partia, também da impossibilidade de serem passadas armas por qualquer fronteira, ... ." (Fernando Portela, em "Guerra de Guerrilhas no Brasil")
"O PCB recebera de Moscou uma substancial ajuda em dinheiro para sua reorganização e recomposição da estrutura clandestina (cerca de 240 mil dólares)." (Luiz Mir, op. cit.).
"No documento Secreto (do SNI) consta o ‘apoio financeiro ao PCB’ que ‘nos últimos três anos teve a maior parte do dinheiro recebido de origem externa, conforme a seguinte projeção do SNI : - ‘Fundo de Auxílio aos Partidos Comunistas, arrecadado em países da Cortina de Ferro e destinado a ajudar os partidos que se encontrem em dificuldade, em face da repressão em seus respectivos países. Em 1974, rendeu cerca de US$ 210.000,00, entregues em Buenos Aires, Argentina, por Agliberto Vieira de Azevedo a Ruth Simis (Maria) e Adib Saad (Cassio), que os transportaram para o Brasil ; ... ‘." (Ayrton Baffa em "Nos porões do SNI").
"Dos 550 mil dólares, 350 mil ainda são ‘contas a receber’, objeto portanto de acerto e divisão entre Lins (Silvio Lins) e Arraes (Miguel Arraes) . Vamos nos empenhar para participar disso, dos dois lados se possível. Do dinheiro recebido até hoje, 90 mil dólares foram enviados aos militantes do MPL no Brasil, o resto consumido por Arraes e o MPL em Paris, numa proporção que ignoramos. O fato é que nenhum tostão, que saibamos, foi até agora dedicado diretamente à revolução, às organizações de luta armada." (Luis Mir, op. cit.).
"A base de sustentação econômica da organização (Ação Popular/AP) sofreu um rude golpe. ... As despesas cresciam assustadoramente e assustadoramente caiam as receitas. Teve-se que apelar para as doações de propriedades e outros bens de membros da organização. Estes, com o desprendimento próprio dos que lutam por elevadas causas, não se fizeram de rogados e entregaram à organização aqui um carro, ali um apartamento, acolá uma casa, mais além uma fazenda recebida de herança, e anéis e relógios e colares progressivamente vendidos para custeio das despesas vultosas. (Haroldo Lima e Aldo Arantes, em "História da Ação Popular")
X - Análise parcial :
"A nação brasileira jamais conheceu crimes tão hediondos em sua história. A arbitrariedade e a arrogância não têm limites. Os militares posam de defensores da pátria, enquanto a submetem ao controle dos quartéis e dos serviços secretos e de informações. O conhecimento da verdade, hoje, está sendo negado à grande maioria dos brasileiros e, para legitimar seus crimes, os militares promulgaram todo um sistema de leis, que só tem qualificação em estados fascistas." (Carta de José Genoíno Neto, remetida em fevereiro de 1975, ao Juiz Auditor e Membros do Conselho de Justiça / 2a R M ?/, a respeito da guerrilha do Araguaia. Consta que, atualmente, o ex-guerrilheiro e atual deputado federal, tem bom trânsito nos quartéis e teve seu nome lembrado para exercer a função de ... "ministro da defesa".) (Apud Fernando Portela em "Guerra de Guerrilhas no Brasil").
"O coronel Geraldo Lesbat Cavagnari Filho sintetiza o espírito do revanchismo militar : A fase de turbulência civil que ocorreu antes da edição do AI/5 e a luta armada desencadeada contra o regime autoritário sugeriram aos militares que (n)a solução dada ao problema da ordem interna residia o desfecho do processo iniciado em 31 de março de 64. É óbvio que o problema da ordem (pública) nas relações internas, assim como a defesa da integridade nacional nas relações externas, é o fim mínimo da Política, estando estreitamente relacionada com o monopólio da força, exercido com exclusividade pelo Estado. Mas o que ocorreu foi que tal problema tornou-se uma obsessão para os militares, levando-os a admitir a necessidade de aniquilamento dos que se opusessem ao regime. Por essa ótica, a solução adotada não visou à reconstrução da antiga ordem, mas ao estabelecimento da nova ordem, onde os contestadores, os subversivos e os movimentos de esquerda teria(m) seus espaços suprimidos. (...) Para essa assepsia político-ideológica, a solução do conflito impunha o deslocamento do centro de decisão para a instância militar do Estado, de onde passariam a ser transmitidos os comandos políticos de uso da força, tendo em vista o aniquilamento do chamado inimigo interno e a consolidação do regime autoritário." (Apud Luis Mir, op. cit.).
XI - Contraditório da análise parcial :
"... aguardamos pacientemente que os regimes ditos marxistas expliquem exatamente como são seus ideais e como devem ser transformados em realidade. Até agora, todos esses regimes provaram ser retrocessos a uma barbárie pré-iluminista, e não estágios iniciais de uma utopia pós-iluminista." (Richard Rorty em "Duas Profecias", Folha de São Paulo, 24 de maio de 1990).
"... não há país onde, depois de instaurado um regime comunista, não tenha sido imposto um sistema de terror. Podem variar os mecanismos do exercício do terror, a quantidade e a qualidade das vítimas, mas está em todo o lugar, temos que repetir com força, em todo o lugar, a idêntica ferocidade, a arbitrariedade e a enormidade no uso da violência para a manutenção do poder." (Norberto Bobbio, filósofo italiano, inspirador da ..."nova esquerda", em entrevista ao jornal italiano L’Unitá’).
" É necessário considerar, desde já, o maquiavelismo cruel e implacável dos chefes comunistas a fim de favorecer essa nova operação de adormecimento da consciência e da responsabilidade nacional dos vigorosos patriotas brasileiros. ... O Brasil é hoje um dos países onde a infiltração e o domínio comunistas alcançaram um ponto tão alto e importante, que as próprias fôrças vivas da nação perderam quase seu espírito de resistência." (Coronel Ferdinando de Carvalho em "IPM 709 - O comunismo no Brasil", editado em 1966. O trecho acima, mais que uma profecia, soa como um alerta !).
XII - Balanço final :
"Fadado a um grande destino, o Brasil seria a terceira grande revolução neste século. A primeira, a União Soviética, segunda, a República Popular da China e a terceira, a República Democrática Popular do Brasil. ... Moscou e Pequim, as capitais que encabeçaram ou pretenderam conduzir a revolução socialista mundial, voltaram-se para este país sempre com um olhar de admiração e urgência. Consenso universal à alteração estratégica que uma revolução no Brasil provocaria no cenário internacional e na relação de forças das superpotências. Para os brasileiros e estrangeiros que a tentaram neste século foi a revolução impossível." (Luis Mir, op. cit.).
"A idéia de Castelo era marchar para uma fórmula de capitalismo democrático. Não se contemplava nenhuma forma de socialismo. ... Agora, se quisermos estudar os outros períodos (ou governos da Revolução), verificaremos que houve erros e acertos. O que interessa é a soma algébrica. O Brasil, quando a Revolução se iniciou, era, em termos de PIB, o 43o país. No fim do período revolucionário, quando houve a redemocratização, em 1985, era a 8a economia do mundo. Hoje, infelizmente, o Brasil é a 11a ." (Senador Roberto Campos, entrevista ao "Jornal da Tarde", caderno especial "1964 - A Herança", 31-3-94).
XIII - Conclusão :
Aí estão alguns fatos da escalada comunista no Brasil antes e durante o regime militar. Isso ocorreu ontem! Você acredita que hoje é diferente? Se disse não, acertou : a escalada vermelha, atualmente, desenvolve-se à sombra da lei e com o beneplácito do governo. Por isso mesmo está mais aberta, mais organizada, mais ousada. Os "bolcheniquins" têm plena certeza de que em 2002 assumirão o governo e o poder, e poderão, enfim, realizar o seu intento de transformar o Brasil numa ... "republica socialista soviética", invertendo o curso de nossa História. Estão pretendendo levantar um muro de ... capim em torno de nossa Pátria e ninguém faz nada seja por conivência, conveniência, omissão, comodismo ou medo !

Lembrai-vos de 1935 ! E de 1961 ! E de 1964 ! E de 1968 ! Não nos esqueçamos de hoje ! E de amanhã !
Vamos ficar sentados esperando ?
*O Articulista é professor e Coronel da reserva do Exército
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